“The back of my hands” de Mary Woodbury (“A idade das mãos”)
Quando abaixo o olhar
e encontro as costas
das minhas mãos
descansando em meu colo
apoiadas no teclado ou
ensopadas na pia, eu vejo
que envelheço
e me espanta a descoberta.
Não estou pronta ainda.
Não quero morrer
e essas mãos me acusam
do crime de mortalidade.
Minhas mãos me acusam.
Posso fugir de espelhos
e recusar minha face
mas as mãos insistem
visíveis, diária evidência
do tempo.
Quem sabe eu começo uma moda – luvas
para idosas desejosas
de renegar sua história
ou escapar de sua sabedoria.
Levantem as mãos, senhoras,
se estiverem dispostas a dividir
conosco a sua graça ou dor.
Se eu vir uma de vocês
no setor de luvas da Eaton
adivinharei: aqui vai uma mulher vulnerável
tão vulnerável quanto eu.
Às vezes usaremos luvas
num ato de protesto.
Outras vezes traremos as mãos nuas
num ato de coragem.
Por Rita Espechit (publicado no SLMG nº 1275)
Anti-feminismo moderno
Quem tem medo de Camille Paglia?
Camille Paglia, 60 anos, integra o time dos intelectuais boxeadores. Suas observações sempre são feitas de maneira pungente. Inesperada. Polêmica. Libertária dos anos 60, só fortaleceu, nas últimas décadas, seu poder de criar polêmicas. Feminista liberal, ela coloca mais responsabilidades sobre os ombros das mulheres do que qualquer outra colega de causa. Repare em uma de suas afirmações, quando da época do escândalo sexual envolvendo Bill Clinton e Mônica Lewinski:
- Para cada assediador sexual grosseiro, existem 10 mulheres sicofantas que desavergonhadamente usam seus atrativos sexuais para avançar na carreira. Não queremos uma sociedade supervisionada por velhas governantas e dedos-duros. A missão correta do feminismo é encorajar as mulheres a agir responsavelmente, sem ter de ficar pedindo socorro todo o tempo a figuras que encarnam a autoridade paterna.
Uau. O feminismo se enfureceu com Camille, essa intelectual que admira Madonna publicamente mas que vive a provocá-la, também publicamente. Quando a diva do pop sofreu uma queda de cavalo em sua propriedade, na Inglaterra, em 2005, Camille foi dura:
- Madonna é a culpada por ter caído do cavalo e quebrado a mão porque ela usa este animal como acessório de moda.
A escritora teria dito que previu o acidente após ter visto uma edição da Vogue América em que Madonna aparece montada num cavalo.
Críticas às mulheres à parte, nos Estados Unidos, seu papel mais importante tem sido o de questionar o status quo americano, sem deixar de levar em consideração o que o american way of life trouxe de contribuições para o mundo. Camille, professora no Philadelphia College of the Performing Arts, tem sido ouvida sobre todos os grandes fatos que abalaram os Estados Unidos, do affair Clinton e da postura de Hillary aos ataques terroristas à tragédia de New Orleans.
Seu mais recente livro (de 2005, ainda não publicado em português) se chama Break, Blow, Burn: Camille Paglia Reads Forty-three of the Worlds Best Poems. Nele, ela publica a íntegra de 43 poemas, cada um deles seguido de um ensaio analítico. Entre os poemas selecionados, O Discurso do Fantasma, que está em Hamlet, de William Shakespeare, A Pulga, de John Donne, e Canto a Mim Mesmo, de Walt Whitman, uma das maiores elegias aos Estados Unidos e ao ser humano. Antes desse, Camille escreveu Personas Sexuais – Arte e Decadência (1990), que a revelou como uma intelectual que de forma pioneira misturava conceitos clássicos com elementos da cultura popular, como rock e televisão, Sexo, Arte e Cultura Americana – Ensaios, Vampes & Vadias (1994) e Os Pássaros – Ensaio sobre o Filme de Hitchcock (1998).
Camille Anna Paglia, nascida no Estado de Nova York, em abril de 1947, é Ph.D em língua inglesa pela Universidade de Yale e consta na lista dos cem maiores intelectuais do mundo, elaborada pela revista Prospect, da Inglaterra. Na próxima quinta-feira, Camille trará todo esse arsenal de conhecimento e ousadia a Porto Alegre, proferindo palestra no Curso de Altos Estudos Fronteiras do Pensamento. Mas nem ela foge à regra e já adiantou: quer conhecer o famoso churrasco gaúcho.
Camille quebra paradigmas e diz o que pensa. Atéia, defende o ensino religioso, uma vez que a religião “é absolutamente central para a cultura e a experiência humana” e, sem ela, não seria possível entender o mundo em que vivemos, sua organização e sua história. Feminista, condena a marginalização da mulher “do lar” pelas feministas – uma vez que a mulher emancipada é fruto da Revolução Industrial e do mercado de trabalho, o feminismo jogaria suas pragas sobre a figura da dona de casa, subserviente e atrasada.
- O movimento feminista tende a denegrir a mulher que quer ficar em casa, amar seu marido e ter filhos, que valoriza dar à luz e criar um filho como missão central na vida. Está mais do que na hora de o feminismo ocidental conseguir lidar com a centralidade da maternidade para a maioria das mulheres no mundo – defende a intelectual.
Para ela, feminismo significa possibilidade:
- Feminismo deveria ser sobre mulheres terem a oportunidade de avançar e terem o direito de auto-subsistência econômica para não depender de um parente homem.
Mas o embate com as feministas não é o único na vida de Camille. Ela também tem levado para o ringue suas discussões com esquerdistas pela sua ênfase nos estudos multiculturais, que deixa de lado o cânone artístico clássico. Para ela, arte é transcendente sim, por mais “retrógrado” que esse conceito possa parecer, segundo suas próprias palavras. Em Porto Alegre, ela fará palestra sobre a representação da mulher na arte.
Sobre o Brasil, Camille tem uma opinião interessante e inspiradora:
- O Brasil consegue incorporar todos os extremos da história humana: o senso de alta civilização combinado ao senso dos elementos da natureza, do primitivo. E é justamente isso que está faltando no modernismo pós-estrutural, o senso da natureza. A glória e o sublime da natureza estão em todo lugar no imaginário brasileiro. Essa convivência é possível desde que se tenha um tipo de educação igualmente baseada nas humanidades e nas ciências exatas e biológicas.
Cachimbo
Pitou.
Esqueceu-se das regras que a proibiam de fazê-lo.
Num instante mágico seus sentidos foram impregnados por aquele aroma denso e atraente outrora proibido.
O sabor… suave e singular a encheu de prazer,
introspecção.
Nada mudou…
ela continuou bela e feminina.













